Sobre Maçãs, Rebanhos e a Servidão Voluntária
Ou: como descobri que o futuro pertence aos que pagam para viver em um jardim murado de design impecável.
Tudo começou com a mais pura e, ouso dizer, nobre das intenções. Meu filho, um idealista como só a juventude permite ser, concebeu uma ideia para arrancar a molecada da letargia digital e devolvê-la ao mundo físico do suor e do asfalto: um aplicativo para organizar “rachões” de basquete nas praças públicas da cidade. Um mapa, um agendamento, um chat. Simples, funcional, comunitário. O código fluiu, o deploy foi concluído, e a pequena utopia estava pronta para nascer no universo Android.
Restava, por mera formalidade, a validação em IOS. E foi aí que a realidade, com a sutileza de um soco maquiavélico, me acertou o queixo. Cem dólares. Não para publicar, não para obter suporte, mas para que a Grande Maçã, em sua benevolência imperial, se dignasse a analisar o aplicativo e emitir seu veredito. A insolência da taxa, o pedágio para a relevância, era de uma arrogância tão sublime que minha primeira reação foi o escárnio. “Ora”, pensei com meus botões, “que se danem. Quem, em sã consciência, ainda se submete a essa seita de hardware superfaturado e ecossistema castrador?”.
Enviei o link para meu filho e sobrinhos, todos fervorosos praticantes do basquete de rua. E então, pela segunda vez na mesma tarde, o chão sumiu sob meus pés. A resposta veio como um epitáfio para a minha lógica: “Pai, todo mundo que treina comigo usa iPhone”. Minha cunhada, em seguida: “Os meninos e os amigos deles? Só usam essa droga”. O golpe de misericórdia veio da minha esposa, com a tranquilidade de quem anuncia o tempo: “Mais de 50% do mercado é deles”.
O queixo, antes caído, agora se arrastava pelo chão. A minha premissa, a minha visão de um mundo onde a lógica, a liberdade e a relação custo-benefício prevalecem, desmoronou. Não era eu o visionário em um mundo de tolos; eu era o dinossauro observando, atônito, a chegada do meteoro de titânio escovado.
É aqui que a crônica deixa de ser sobre tecnologia e se torna um ensaio sobre a estultícia humana, uma ode à servidão voluntária com pitadas de Dorian Gray. O que leva uma pessoa a pagar o dobro por um aparelho que lhe oferece metade da liberdade? A resposta, temo, é a mesma que leva Dorian a vender a alma por um retrato que nunca envelhece. Não se compra um produto; compra-se um símbolo, um pertencimento, a ilusão de uma perfeição estética.
O aparelho em suas mãos é o retrato impecável: belo, fluido, invejado. O usuário nunca precisa olhar para a pintura no sótão, que apodrece a cada dia: o sistema operacional que o trata como um inquilino em vez de dono, os cabos proprietários, as taxas arbitrárias, a impossibilidade de instalar o que bem entende, a obsolescência programada disfarçada de inovação. É um pacto fáustico com a estética. Paga-se pelo esplendor do jardim murado, não pelo horizonte aberto da floresta selvagem.
A genialidade da Maçã não é tecnológica, é teológica. Ela criou uma religião. Seus fiéis não são clientes, são devotos. Eles não compram, comungam. E, como em toda fé que se preze, o sacrifício financeiro e a renúncia à liberdade não são vistos como um fardo, mas como uma prova de devoção. Questionar é heresia. Optar pela liberdade funcional do mundo lá fora é confessar-se um bárbaro, um pária desprovido de bom gosto.
Ao fim, retornei à minha caverna platônica, o terminal escuro do meu Linux, e refleti. A grande massa não quer a luz ofuscante da verdade ou a complexidade da escolha. Ela quer as sombras na parede, desde que projetadas por um aparelho de design minimalista e com uma interface intuitiva.
E talvez eles estejam certos. Afinal, quem se sujeita a pagar caro por péssimos serviços talvez não mereça nada além da beleza fria das sombras que dançam na parede da caverna.


