A Burrocracia e a Vida Eterna do Contribuinte
Ou, como meu pai, quatro anos após sua morte, tornou-se um fora da lei motorizado.
Há uma beleza quase artística na lógica de um sistema que aperfeiçoou a arte de ser, simultaneamente, uma máquina de eficiência implacável e um pântano de incompetência abissal. Esta semana, recebi uma prova irrefutável dessa tese, um documento que deveria ser emoldurado e exposto em um museu da insanidade institucional: uma notificação do DETRAN, em nome do meu pai. A infração? Sua CNH estava vencida há seis meses. Um detalhe, um mero rodapé nessa narrativa kafkiana: meu pai faleceu há quatro anos.
A minha primeira reação não foi a raiva, mas uma espécie de admiração perversa. Que sistema! Que engrenagem! Um aparato estatal tão vigilante que consegue fiscalizar a validade da carteira de motorista de um homem que já se desfez em pó, mas que, aparentemente, não consegue cruzar dados para constatar um atestado de óbito. Um fantasma infrator. Uma alma penada acumulando pontos na carteira no além.
E é aqui que a comédia se desfaz em tragédia ácida. Lembrei-me da outra face dessa mesma eficiência. Quando meu pai se foi, numa sexta-feira, bastou o sol de segunda-feira raiar para que a mesma burocracia, com a velocidade de uma guilhotina, bloqueasse todas as suas contas bancárias. Para tomar, a máquina é um predador faminto e veloz. Para dar, no entanto, ela se transforma em um paquiderme reumático. Minha mãe, com seus então 80 anos, precisou de um calvário de seis meses para começar a receber uma pensão que era sua por direito. Outra parte da pensão levou mais de um ano para ser liberada, e os valores atrasados, esses se perderam em algum limbo fiscal do qual jamais retornaram. E, claro, o Imposto de Renda continua a abocanhar sua fatia, porque a longevidade, aos olhos do Leão, é um luxo que deve ser taxado.
Então, a pergunta que me corrói não é apenas retórica: estamos lidando com uma “burocracia” ou com uma “burrocracia”? A estupidez, quando sistêmica, adquire os contornos de um plano genial. É um labirinto tão mal projetado que se torna uma armadilha perfeita. Não é um erro no sistema; o erro é o sistema.
E ele se moderniza. O Estado se vangloria de seus “avanços digitais”, mas o que vejo é apenas a sofisticação da crueldade. Vejo minha mãe, agora com 84 anos, apavorada diante da tela de um computador, aterrorizada com a possibilidade de perder sua parca pensão porque não consegue decifrar o enigma do recadastramento digital no site da prefeitura. O labirinto de papel foi substituído por um labirinto de cliques e senhas esquecidas, um novo teste de resistência desenhado para que os vulneráveis desistam pelo cansaço.
Não, não é burrice. A burrice é caótica e aleatória. Isto é preciso. É um projeto. É a esperteza mais genuína e sórdida de um Estado que se alimenta da nossa energia em vida e continua a nos assombrar com suas cobranças na morte. É um poder que se manifesta não pela força, mas pelo esgotamento, pela criação de uma realidade paralela onde um homem morto pode ser um motorista infrator e uma viúva de 84 anos, uma potencial fraudador.
No fim, o sentimento que fica não é de raiva, mas de uma irritação profunda, a fúria impotente de quem entende a mecânica da fraude, mas é obrigado a continuar jogando.

